
Artigo de Luís Carlos Nunes , em Caso de Política
A política no Oeste baiano vive um momento de forte tensionamento institucional provocado pela atuação do vereador de Wanderley, Geremias Mascarenhas (PSD). Eleito para representar o município vizinho com jornada oficial de 44 horas semanais – o que exige uma dedicação de 8 horas e 48 minutos diários -, o parlamentar tem concentrado sua atuação quase exclusivamente em críticas ao presidente da Câmara de Barreiras, Yure Ramon. A postura levanta questionamentos éticos e administrativos: estaria um agente público utilizando tempo e visibilidade pagos pelo povo de Wanderley para atuar politicamente sob encomenda em outra cidade?
Transparência limitada e vitrine de autopromoção
Enquanto direciona sucessivos ataques à gestão barreirense, Geremias ignora a precariedade da transparência na própria Casa que integra. O site oficial da Câmara de Wanderley, longe de cumprir a Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), funciona mais como uma vitrine de autopromoção, com perfis e fotos atualizados em detrimento de dados públicos essenciais.
Em levantamento realizado pelo Portal Caso de Política, não foram localizados nas páginas institucionais de Wanderley documentos fundamentais como a Lei Orgânica Municipal ou o Regimento Interno do Legislativo. O contraste evidencia uma inversão de prioridades: a publicidade pessoal recebe destaque, enquanto informações vitais ao controle social permanecem ocultas ao cidadão.
Retórica discriminatória e o “Psicólogo Amador”
Nos vídeos divulgados nas redes sociais, que ultrapassam 21 minutos, Geremias utiliza expressões como “pobre, preto e gordo” para atacar Yure Ramon. O conteúdo adota uma linha de ataque pessoal baseada em aspectos físicos e sociais, distanciando-se do debate institucional esperado. Ao atribuir ao presidente da Câmara supostos “traumas” e uma alegada “Síndrome do Pequeno Poder” – termo usado sem qualquer base acadêmica ou bibliográfica -, o vereador troca o debate qualificado pela performance performática de redes sociais.
A contradição se torna flagrante quando o parlamentar classifica a presidência do maior Legislativo do Oeste como “pequeno poder”, ao mesmo tempo em que utiliza seu próprio mandato em Wanderley apenas como plataforma de intervenção política em município alheio.
O debate sobre o empréstimo de R$ 140 milhões
Outro ponto central envolve a defesa de Geremias pela aprovação de um empréstimo de R$ 140 milhões sem o detalhamento de planilhas. Contudo, a exigência de transparência é uma imposição legal: o Art. 32 da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) exige autorização específica e o Art. 16 impõe a estimativa de impacto orçamentário. Além disso, a Instrução Normativa nº 01/2021 do TCM-BA determina a apresentação do plano de aplicação dos recursos, com metragens e destinação dos valores.
Essa cautela administrativa é compartilhada pela maioria absoluta do Parlamento de Barreiras. Estima-se que entre 12 e 13 dos 19 vereadores – incluindo aliados da base governista de Otoniel Teixeira – rejeitam votar a matéria “sem a devida transparência”. Para o plenário, votar sem respaldo documental seria negligenciar o dever de fiscalização e afrontar o Ministério Público e o Tribunal de Contas.
Confronto com princípios democráticos
Geremias também critica a soberania do plenário e a realização de sessões solenes em Barreiras. Ao atacar o princípio de que as decisões dependem da maioria dos vereadores, e não apenas da presidência, ele confronta um pilar elementar da democracia legislativa. Da mesma forma, sua crítica a homenagens e títulos – práticas comuns a todos os parlamentos – revela um discurso focado no desgaste político em vez de uma discussão técnica real.
Alianças, projeto de poder e consequências jurídicas
A ingerência de Geremias revela um projeto político alinhado aos seus padrinhos: a deputada estadual Jusmari Oliveira (que busca a reeleição), o ex-prefeito de Barreiras, Zito Barbosa (pré-candidato a deputado federal), e o prefeito Otoniel Teixeira. Atuando como linha de frente desse grupo, Geremias visaria pavimentar uma candidatura a deputado estadual em 2026. Para 2028, os caminhos se dividem: a disputa pela prefeitura de Wanderley ou, conforme apontam bastidores, a migração de seu domicílio para Barreiras – onde já reside – para disputar uma vaga no Legislativo local.
Essa escalada ampliou o debate sobre os limites da imunidade parlamentar, que não alcança ataques pessoais ou discriminatórios. As declarações de Geremias já motivam discussões sobre quebra de decoro e medidas judiciais sob a Lei Federal nº 14.532/2023, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo, tornando-o inafiançável e imprescritível. No centro da controvérsia, a resposta permanece objetiva: exigir transparência prévia é o cumprimento rigoroso da lei, e não obstrução política.
